segunda-feira, 23 de julho de 2012

Um Novo Começo

   O ronco do motor envenenado do Maverick enebreava a mente de David, fazendo seus pensamentos cavalgarem como um alazão selvagem. Victoria era o nome que vinha a sua mente, a mortal que quase fez David se apaixonar foi deixada morta, com suas veias secas em um apartamento em Santa Mônica, morta pela paixão a seu sangue. David não resistiria muito tempo, ele sabia disso desde que encontrou a mulher pela primeira vez no estacionamento daquele shopping center, ele sabia que envolver-se com ela iria resultar nisso.
   Los Angeles, a segunda coisa que vem a sua cabeça. Uma cidade que David havia jurado não voltar tão cedo. A cidade por si só era uma tentação a sua obsessão, repleta de viciados, estupradores, assaltantes, traficantes, degenerados, corruptos e pedófilos; um parque de diversões para sua perversidade sanguinária, um vício para seus sentidos, um deleite para sua luxúria, ou seria Ira?
   O vento batia em seu rosto e seus cabelos se debatiam, soltos. A estrada estava deserta, apenas o maverick preto corria naquela pista. Havia um corpo no porta-malas, um traficantesinho de merda que David tinha pego em um dos becos de Los Angeles antes de deixar a cidade rumo a Nova York. Ele o teria matado, mas decidiu levar o bostinha como um lanche para a viagem.
   Uma espécie de tristeza se abateu sobre David. O vazio dentro dele pareceu maior que de costume e de certa forma começava a consumí-lo. Sua família estava morta, sua vida em Detroit estava morta, seu corpo estava morto, Victória estava morta. Ele fugia noite após noite do Sabá e especialmente de Christine, não pisaria mais em Detroit, nem em Los Angeles. Quem sabe quais outras cidades ainda entrariam nessa lista? Sua vida, ou melhor, sua não-vida, havia virado um inferno e nesse inferno ele era o menor dos demônios, talvez até pudesse ser considerado um anjo caído.
   David olhava pela janela do carro quando viu se aproximar de um bar de estrada, "Roadhouse Blues" estava escrito no letreito em neon, um daqueles bares cheios de motoqueiro, bêbados, valentões e mulheres de vida fácil. Um lugar perfeito para a diversão. Diversão, era isso que ele precisava, não estava com fome, havia se alimentado do gado imundo no seu porta-malas fazia menos de uma hora, era de diversão que ele precisava para espantar a melancolia que começava a se aproximar.
   A porta do bar de abriu, um homem pálido de coturno, calça de couro e camisa cinza entrou pela porta com um cigarro entre os dedos. Várias pessoas olharam enquanto o homem dirigia-se ao balcão. Uma bandinha qualquer tocava um blues, algumas pessoas dançavam no ritmo da música, outras estavam mais preocupadas com suas bebidas. Havia um grupo de rapazes na mesa de sinuca e várias pessoas nas mesas e no balcão. As garçonetes passavam por entre as mesas, agitadas para atender a clientela. O lugar estava cheio, cheio de mortais, cheio do gado, da carne fresca, cheio da deliciosa vitae que avivava aqueles corpos. David foi até o balcão, pediu um scott duplo sem gelo, apenas para desfarçar enquanto olhava ao redor, procurando uma vítima para sua diversão.
   Um homem bêbado enconstado ao balcão, próximo de David, conversava com uma mulher que parecia tão alterada quanto ele. Na agitação do bar, David troca seu copo cheio de scott pelo copo vazio do homem, ninguém percebe. Com o copo vazio em mãos ele anda pelo bar, dentre as pessoas "Talvez alguém interessante na mesa de sinuca", pensou.
   Um homem esbarra propositalmente em David, que logo se vê cercado por três homens corpulentos, um deles possui um ar animalesco, feroz, como um tigre enfurecido por perder sua presa. "Você está longe de seu território" vocifera o homem de cabelos longos e desgrenhados, pouco mais alto que David e com bem mais corpo. David olhou para os três, analisou a situação. Poderia invocar as sombras para dar cabo de um ou dois, enquanto acabava com um terceiro, mas não seria fácil se livrar de todos os mortais em pânico pela quebra da Máscara. "Não sabia que era território de alguém" respondeu tentando evitar confusão. "É, é o nosso, e você não é bem vindo". Disse o feroz. "Não gostamos de quem não tem sombra" Disse o homem a sua direita, com um ar menos animalesco que o companheiro, mas tão feroz quanto. "Podem ficar" disse David com um ar de desprezo , passou pelos homens em direção a saída.
   Já no carro, saindo do estacionamento da maravilhosa espelunca "Roadhouse Blues", David olhava para as motos estacionadas e para os três vampiros ferozes que vigiavam sua saída. "Babacas", David pensou. Não adiantava brigar com esse tipo de Membro, ele só iria arrumar confusão desnecessária no domínio de algum Príncipe. Havia ouvido muito sobre a hierarquia severa da Camarilla, regras e Tradições que não existiam no Sabá ou dentre os Anarquistas, por onde David já andara antes. Mesmo a sua ira, não seria mais forte que toda a Camarilla junta, ele não conseguira sequer matar Christine, como iria desafiar abertamente, sozinho as leis de uma organização de Monstros que fazia frente ao Sabá? Não, ele se manteria calmo e tentaria ficar longe do domínio dos outros, seria a tática mais esperta a se seguir se ele quisesse sobreviver tempo suficiente para concluir sua vingança, afinal, ele queria um novo começo, estava cansado de fugir do Sabá, a escolha por Nova York foi por ter ouvido que recentemente a Camarilla havia expulsado o Sabá da cidade, não parecia haver lugar mais seguro, e era para lá que David estava indo.