segunda-feira, 23 de julho de 2012

Um Novo Começo

   O ronco do motor envenenado do Maverick enebreava a mente de David, fazendo seus pensamentos cavalgarem como um alazão selvagem. Victoria era o nome que vinha a sua mente, a mortal que quase fez David se apaixonar foi deixada morta, com suas veias secas em um apartamento em Santa Mônica, morta pela paixão a seu sangue. David não resistiria muito tempo, ele sabia disso desde que encontrou a mulher pela primeira vez no estacionamento daquele shopping center, ele sabia que envolver-se com ela iria resultar nisso.
   Los Angeles, a segunda coisa que vem a sua cabeça. Uma cidade que David havia jurado não voltar tão cedo. A cidade por si só era uma tentação a sua obsessão, repleta de viciados, estupradores, assaltantes, traficantes, degenerados, corruptos e pedófilos; um parque de diversões para sua perversidade sanguinária, um vício para seus sentidos, um deleite para sua luxúria, ou seria Ira?
   O vento batia em seu rosto e seus cabelos se debatiam, soltos. A estrada estava deserta, apenas o maverick preto corria naquela pista. Havia um corpo no porta-malas, um traficantesinho de merda que David tinha pego em um dos becos de Los Angeles antes de deixar a cidade rumo a Nova York. Ele o teria matado, mas decidiu levar o bostinha como um lanche para a viagem.
   Uma espécie de tristeza se abateu sobre David. O vazio dentro dele pareceu maior que de costume e de certa forma começava a consumí-lo. Sua família estava morta, sua vida em Detroit estava morta, seu corpo estava morto, Victória estava morta. Ele fugia noite após noite do Sabá e especialmente de Christine, não pisaria mais em Detroit, nem em Los Angeles. Quem sabe quais outras cidades ainda entrariam nessa lista? Sua vida, ou melhor, sua não-vida, havia virado um inferno e nesse inferno ele era o menor dos demônios, talvez até pudesse ser considerado um anjo caído.
   David olhava pela janela do carro quando viu se aproximar de um bar de estrada, "Roadhouse Blues" estava escrito no letreito em neon, um daqueles bares cheios de motoqueiro, bêbados, valentões e mulheres de vida fácil. Um lugar perfeito para a diversão. Diversão, era isso que ele precisava, não estava com fome, havia se alimentado do gado imundo no seu porta-malas fazia menos de uma hora, era de diversão que ele precisava para espantar a melancolia que começava a se aproximar.
   A porta do bar de abriu, um homem pálido de coturno, calça de couro e camisa cinza entrou pela porta com um cigarro entre os dedos. Várias pessoas olharam enquanto o homem dirigia-se ao balcão. Uma bandinha qualquer tocava um blues, algumas pessoas dançavam no ritmo da música, outras estavam mais preocupadas com suas bebidas. Havia um grupo de rapazes na mesa de sinuca e várias pessoas nas mesas e no balcão. As garçonetes passavam por entre as mesas, agitadas para atender a clientela. O lugar estava cheio, cheio de mortais, cheio do gado, da carne fresca, cheio da deliciosa vitae que avivava aqueles corpos. David foi até o balcão, pediu um scott duplo sem gelo, apenas para desfarçar enquanto olhava ao redor, procurando uma vítima para sua diversão.
   Um homem bêbado enconstado ao balcão, próximo de David, conversava com uma mulher que parecia tão alterada quanto ele. Na agitação do bar, David troca seu copo cheio de scott pelo copo vazio do homem, ninguém percebe. Com o copo vazio em mãos ele anda pelo bar, dentre as pessoas "Talvez alguém interessante na mesa de sinuca", pensou.
   Um homem esbarra propositalmente em David, que logo se vê cercado por três homens corpulentos, um deles possui um ar animalesco, feroz, como um tigre enfurecido por perder sua presa. "Você está longe de seu território" vocifera o homem de cabelos longos e desgrenhados, pouco mais alto que David e com bem mais corpo. David olhou para os três, analisou a situação. Poderia invocar as sombras para dar cabo de um ou dois, enquanto acabava com um terceiro, mas não seria fácil se livrar de todos os mortais em pânico pela quebra da Máscara. "Não sabia que era território de alguém" respondeu tentando evitar confusão. "É, é o nosso, e você não é bem vindo". Disse o feroz. "Não gostamos de quem não tem sombra" Disse o homem a sua direita, com um ar menos animalesco que o companheiro, mas tão feroz quanto. "Podem ficar" disse David com um ar de desprezo , passou pelos homens em direção a saída.
   Já no carro, saindo do estacionamento da maravilhosa espelunca "Roadhouse Blues", David olhava para as motos estacionadas e para os três vampiros ferozes que vigiavam sua saída. "Babacas", David pensou. Não adiantava brigar com esse tipo de Membro, ele só iria arrumar confusão desnecessária no domínio de algum Príncipe. Havia ouvido muito sobre a hierarquia severa da Camarilla, regras e Tradições que não existiam no Sabá ou dentre os Anarquistas, por onde David já andara antes. Mesmo a sua ira, não seria mais forte que toda a Camarilla junta, ele não conseguira sequer matar Christine, como iria desafiar abertamente, sozinho as leis de uma organização de Monstros que fazia frente ao Sabá? Não, ele se manteria calmo e tentaria ficar longe do domínio dos outros, seria a tática mais esperta a se seguir se ele quisesse sobreviver tempo suficiente para concluir sua vingança, afinal, ele queria um novo começo, estava cansado de fugir do Sabá, a escolha por Nova York foi por ter ouvido que recentemente a Camarilla havia expulsado o Sabá da cidade, não parecia haver lugar mais seguro, e era para lá que David estava indo.

terça-feira, 22 de março de 2011

Vislumbre Quimérico

     O vazio em minha alma aumenta a cada noite. Sinto cada vez menos os sentimentos mais nobres e ocupo o vazio com minha Ira pelos vermes da sociedade, os assaltantes, estupradores, corruptos e malfeitores. A cada noite eu acordo e olho pela minha janela, olho para as ruas abandonadas pela ordem e pelo progresso, olho para ruas negras, sujas de violência, luxúria e corrupção. Eu vejo todo o miasma que infesta as vielas e as alcovas, eu vejo toda a imundice que percorre as vias públicas impunemente, eu vejo a cidade sangrar com as punhaladas que recebe, e gritar um grito abafado de socorro.
     Estou sentado na minha poltrona, em meu apartamento mórbido e luxuoso. Ganho meu dinheiro de forma honesta no ramo imobiliário, assim como o pai que eu um dia tive também fazia. Tenho vinte e seis anos e estou tecnicamente morto à onze meses. Mesmo morto não consigo olhar para esta cidade e aceitar que ela também morre, sofrida e lentamente à cada noite enquanto os responsáveis lavam suas mãos para evitar crucificar o eleito pelo povo e acabam sacrificando o mais puro e nobre.
     É assim que abasteço minha Ira, é assim que mantenho aceso a fornalha do meu ódio. É inadmissível que as coisas sigam este rumo, é inconcebível que o poder legal e oficial, creditado pelo povo, escolha sempre fechar os olhos, virar a cara e lavar as mãos para a guerra urbana e o massacre dos miseráveis que existe. Onde está o dinheiro dos impostos que pagamos para a lei ser mantida? Onde está a justiça e a assistência? Em uma terra onde a lei é feita pelas balas dos criminosos, a impunidade reina e o egoísmo, a gula, a luxúria e o caos imperam.
     Sou um homem forte e já suportei coisas que as pessoas nem sequer conhecem, mas Deus sabe como é difícil suportar a Ira que a impunidade alimenta em meu peito. Deus sabe como é sofrido suportar a pressão causticante em minha alma. Choro ao ver as coisas como estão. Grito ao me ver sem saída, envolto neste sentimento de revolta e ter que admitir a perda de minha esperança.
     Oro à Deus todas as noites e vejo que ele a pôs em meu caminho, não como uma solução ou uma benção, mas como mais uma maldição que arranca o coração de meu peito com crueldade, me fazendo escolher entre o doce amor, a ardente e sufocante paixão, ou a impiedosa e implacável vingança contra os malditos bastardos que me fizeram ser o que sou. Bela e pura Victória, anjo que acalma minha alma, que preenche meu vazio. Juro pelo sol que não posso ver que não entendo como ela pode fazer isso comigo. Eu que envolto em revolta, virilidade e anarquismo me vejo tão frágil em sua presença, forçado a impor um monstro que não quero ser para obter sua atenção e usar de ferrolhos forjados pelo medo para manter-lhe presa a mim e incapaz de usar sua doçura para arrebatar minha alma.
     De pé eu me ponho e olho para os trovões que cortam o céu. Ó Deus! Eu perco o sono pensando.

"Penso na paixão, na loucura e na razão.
Vejo a noite, a lua e as nuvens.
Vejo tudo o que me falta em meus pensamentos.
Vejo o que deveria ter e o que realmente tenho.

Avalio a distância entre a realidade e a fantasia
Penso no tempo perdido
Penso no calor dos corpos nús
Penso na leveza da alma

Como quebrar o minimalismo
que tanto assola
minha visão?

A paixão pela loucura
é a liberdade da aflição,
ou o início do tomento?"

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Um lembrete para os VIPs

     O sol se pôs, as sombras da noite cobrem a cidade, tornando o que é proibído muito mais tentador, muito mais gostoso. Quando a maioria das pessoas se arruma para sair, quando todas as pessoas que fazem a sociedade, que contribuem para o funcionamento da sociedade, que alimentam a grande máquina consumista só porque lhe dizem que deve ser assim, que essa é a melhor forma de se viver; as pessoas que seguem os "bons" costumes que a sociedade impõe, que gastam $800 em uma bolsa que vai ser usada menos de uma vez por mes, mas não dão nem $150 para uma obra de caridade ou uma instituição filantrópica; pessoas que gastam $1500 em uma noite, apenas por diversão, alimentando o narcotráfico, a prostituição e a própria soberba, mas nem se dignam a visitar um hospital, um asilo, um orfanato; pessoas que roubam, sequestram, estupram e agem de má fé sobre quem tem boa fé. Sociedade, àquela que é tida como uma entidade independente que manda e desmanda, mas que é alimentada e criada pelas mesmas pessoas que reclamam de seus abusos, de seu lado ruim, de sua podridão pérfila que inunda as ruas mais e mais a cada dia.
     Não falaremos de crimes apenas, porque crimes só são crimes quando a sociedade diz que eles são transgressões à lei criada pela sociedade com a finalidade de manter a própria sociedade, o próprio "sistema"; falaremos de virtudes, conceitos inerentes ào Homem, virtudes como Amor, Caridade, Castidade, virtudes como Temperança, Fortaleza, virtudes que combatem defeitos, virtudes que destróem a "boa" sociedade, a mesma sociedade consumista, hipócrita e demagoga que faz um homem roubar para se alimentar e depois o condena por crime, a mesma sociedade que impõe "obrigações" de consumo para manter um status, fazendo muitos desafortunados começarem a roubar para alimentar seu padrão de vida "àos moldes da sociedade", satisfazendo vícios como o Egoísmo, a Luxúria, a Gula, a Avarez.
     A verdade é que a sociedade atual é uma merda, força as pessoas à venderem o almoço para garantir a janta, implanta o desnível social, conduz as pessoas a um desespero que só é temporariamente, e eu repito, temporariamente, sanado, quando o ego é inflado pelo consumismo. Essa é a verdade e a verdade, nos dias de hoje, é um luxo para os que pensam por si só e buscam tornar o mundo um lugar mais justo. "O mundo não é justo", é o que dizem, é o que nos fazem acreditar. Eles tem razão, o mundo não é justo por inteira culpa de todos. Cada um que alimenta a desordem da sociedade é responsável pela criação de assassinos, ladrões, traficantes, sequestradores e estupradores.
     Eu estou muito feliz. Feliz por vocês, todos vocês, pessoas boitas, jovens, que fazem tudo por beleza, fama, sucesso e dinheiro, estou muito feliz por vocês existirem, seres humanos medíocres, mortais de péssima estirpe. Estou muito feliz porque são vocês que mantém minha fortuna, meu domínio sobre a sociedade. São vocês, bonecos de fantoches que oferecem os cordões para serem puxados, que dão poder a pessoas como eu, à Monstros como eu.
     Vejo esta expressão de desapontamento toda vez que tenho esta conversa com um mortal. Você não achou realmente que eu estava reclamando da sociedade, achou? Quero dizer, olhe para mim, bela e imortal, cheia de poder, poder extraído do domínio que exerço sobre pessoas como você. Poder que vocês, mortais imbecis e pútridos me oferecem de bom grado noite após noite, apenas por mais uma dose das tentações que posso oferecer-lhes.
     Parabéns, continuem assim, eu os aplaudo com grande entusiarmo e vivacidade toda vez que posso. Seus merdas.

                                                                                       - Helena, falando com sua presa.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O Caminho até aqui

     David nasceu em berço de ouro. Sua família muito rica, dona de uma empresa no ramo imobiliário. Seus pais sempre o criaram com muito amor e afeto como filho favorito, seus irmãos mais novos eram unidos, apesar das implicancias e brigas. David não era muito popular na escola e tinha poucos amigos, sempre foi alvo de implicâncias e sempre guardou suas mágoas, evitando de revidar as agressões e o repudio. Quando cresceu, decidiu que iria estudar direito e tornar-se advogado. Sua vida era boa e comum, até acontecer a tragédia em sua família. Certa tarde, enquanto David estudava na casa de um amigo, um bando de sequestradores invadiu a propriedade da família e fez refém toda a sua família. Os policiais demoraram a agir e toda a família de David foi morta durante o tiroteio que houve na casa.
     Jovem, sozinho e cheio de dinheiro, indignado pela perda de sua família e com raiva do destino que se abateu sobre ele, David se revoltou com a sociedade, passou a arrumar confusão com os valentões da escola, se inscreveu no clube de tiro, começou a aprender karatê. Após sua formatura passou a frequentar a vida noturna e estava decidido a não mais estudar direito, mas sim, ser policial para poder exterminar cada verme que compõe a escória da sociedade e foi aí que David tornou-se realmente agressivo.
     Decidido a não mais morar na grande casa de sua família, David vendeu a propriedade e comprou uma cobertura em um prédio de classe média alta, resolveu tentar tocar os negócios de seu pai no ramo imobiliário, com ajuda de Bob, seu tutor legal e grande amigo de sua família. Ingressou na academia de polícia, onde estudou para ser detetive.
     David a conheceu em uma festa, linda e sensual, em um vestido provocante, ela o seduziu e o levou ào abraço. "Ela estava certa, foi uma noite inesquecível".
     Duas semanas depois ele já estava se habituando à não-vida, apesar da raiva contida que começava a se libertar em cima Dela, ainda não apresentado ao Sabá, houve um evento que o fez libertar toralmente sua Ira, e a transformou na perturbação que é hoje. No beco, mutilando os estupradores, ele descobriu que ela não o tinha amaldiçoado apenas, mas potencializado suas capacidades para sua vingança contra a escódia social.
     Quando conheceu o Sabá e viu do que se tratava, ele fugiu. Tentou matar Christine, sua Senhora, mas percebeu que não poderia e por isso fugiu para longe de Detroit, vendendo a empresa de seu pai, transformando Bob em um carniçal e forçando-o à lealdade pelo Laço de Sangue, artimanhas ensinadas pela vadia demagoga.
     David perambulou pelo país até chegar em Los Angeles, achando que Ela tinha perdido sua pista após oito meses de fuga. Em Santa Mônica ele começou a se estabelecer, conheceu Helena que lhe levou o instruiu quanto às Leis da Sociedade de Sangue. Helena sentiu-se seduzida por David, principalmente por ele ser uma presa difícil e resistente à sedução dela, ela o tomou, finalmente, como amante e tentou doma-lo, mas a natureza rebelde de David não permitiu que o charme da Toreadora o dominasse, fazendo com que ela sinta um certo rancor dele até as noites de hoje.
     O jovem Lasombra foi apresentado ao Príncipe e foi aceito na cidade, abriu uma imobiliária, em honra a seu falecido pai, mantendo Bob, seu ex mordomo, como dono legal da empresa. David habita uma cobertura luxuosa em Santa Mônica, o lugar tem uma aparência fria e com uma arrumação perfeita. David conheceu a bela e doce Victoria, que é uma mulher forte mas não resiste à presença assustadora sedutora que David exerce sobre ela. Victoria, com seu jeito feminino e mortal é a opção mais próxima para a salvação de David, pois ele sente que pode tentar ser feliz temporariamente com o que ele chama de "namorico" com Victória. A cada noite sua insanidade o leva mais para baixo na trilha da humanidade. Victoria também exerce influência sobre David, pois há umas doses de paixão mútua entre eles.
     A vingança contra os vermes da sociedade, proposta pro David, aos poucos o levou à uma obsessão compulsiva que se atenuou após seu abraço. Hoje, ele caça pessoas más, desvirtuadas, que causam mal deliberado à inocentes; hoje David caça a escória da sociedade, esperando o momento mais oportuno para ataca-los, tortura-los fisica e mentalmente, para depois mata-los da forma mais cruel que vier à sua mente tomada pela insanidade.
     Mesmo se apresentando ao Príncipe e pedindo permissão para residir em Los Angeles, David se mantém independente, não jurando lealdade à nenhuma seita. A "vadia", como a chama, é uma ductus de um bando no Sabá em Detroit. Ela não engoliu a fuga de David antes dos Ritos de Criação e não aceitou pacificamente a tentativa dele de mata-la. Christine sente uma atração sexual por David que não sentia nem mesmo quando estava viva. Ela o quer no bando e fará qualquer coisa para puni-lo e traze-lo de volta. Na cabeça dela, ele tem que se dobrar à vontade dela.
     Alto, com cabelos negros e lisos, até o queixo. Pele bem clara, meio pálida. Raramente David usa o poder do sangue para a própria aparência, que já o faz belo e letal o suficiente para seduzir e amedrontar. Costuma vestir-se com jeans ou couro, geralmente botas tipo coturno; geralmente com um casaco grande e "pesado".
     Hoje, David vive em uma linha tênue entre fazer cumprir sua vingança psicótica e obsessiva contra os vermes sociais, ou abraçar sua humanidade junto à Victória. Seja como for, David é um celebrante apaixonado; apaixonado por pela punição que infringe à escória; apaixonado pela sua mortal Victória; apaixonado pela sua liberdade e independência.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Perigosa Diversão

     Com um ar presunçoso, de domínio sobre a situação, David levantou-se do capô do carro e pôs-se a andar passo-a-passo em direção à sua presa. Victoria começava a ficar mais apreensiva.Um estranho daqueles se aproximando, o estacionamento vazio, sua porta travada, quanto azar!
     Dando um trago no cigarro e fitanto sua presa, David se aproximou de Victoria, parando à poucos passos dela. Olhando-a de cima a baixo, com seus olhos negros e frios. "Dia ruim não...?" Disse David em tom suspeito. Victoria tentou fugir do olhar, mas acabou por encara-lo, sem dizer nada, sem saber o que dizer.
     "Talvez eu possa lhe ajudar..." disse David levando a mão à massaneta do carro, encostando na mão dela. Victoria tirou a mão rapidamente, assustada com a aproximação repentina e suspeita dele. Ele se posicionou de tal forma que emprensou ela levemente,com seu corpo, contra o carro, de frente para ele. David forçou a maçaneta enquanto liberava as sombras que prendiam a tranca, abrindo a porta com facilidade. "Prontinho..." disse ele com sua voz estranhamente carismática, com um tom de ameaça e sedução.
     Após abrir a porta, permaneceu alguns segundos ainda prendendo Victoria, com a proximidade das duas faces, ele a analisava, a cheirava como um predador farejando sua presa. E então, ele se afastou. A respiração dela estava forte, o medo era nítido nela. Victoria rapidamente entrou no carro, porém, quando foi fechar a porta, a mão de David a impediu. "Algo mais?" disse David com um ar convidativo, como se a chamasse para a escuridão, para o deleite. "Não, obrigada." disse Victoria tentando manter-se calma enquanto puxada a porta para fechada. Finalmente, David decidiu deixa-la ir, soltando a porta e se afastando do carro.

      Victoria estava dirigindo, nervosa pelo encontro com o estranho. O carro andava à alta velocidade nas ruas de Los Angeles, como se fugisse de um perseguidor, no entanto, não havia carro algum seguindo Victoria. Foi então que de uma rua próxima o Ford Mustang negro como a noite apareceu, dobrando na rua principal e emparelhando com o carro de Victoria, quando o sinal fechou. Victoria rapidamente levantou o vidro do carro, fechando-se para qualquer aproximação do estranho. David a olhou pela janela, com o vidro abaixado, estudando sua presa, seu alvo. O sinal abriu e Victoria arrancou com o carro. David acelerou também, andando lado-a-lado com ela, como em um racha no qual ele permitia-se controlar o carro para não ultrapassar sua presa. O medo dela o estimulava e o fazia desejar ainda mais beber daquele sangue, cravar as presas naquela mulher bela e cheirosa.
     David dobrou em uma rua secundária, deixando-a avançar pela rua principal, dando a ela a impressão que se livrara dele.

     Victoria já tinha chegado em casa fazia meia hora. Ainda muito assustada pelos acontecimentos da noite, ela tinha ido tomar um banho. Lá fora, o Ford Mustang era estacionado na calçada em frente ao apartamento de Victoria. David olhava para as luzes acesas do apartamento dela, pensando em como faria.
     Ao sair do banho e vestir-se já para tentar dormir, o sentimento de insegurança ainda permanecia em Victoria. Ela voltada da cozinha com um copo d'água na mão quando olhou pela janela da sala e viu o carro negro estacionado em frente ao seu apartamento. O copo quase caiu de sua mão quando ela ouviu a campainha tocar. Victoria estava assustada, não sabia o que mais poderia fazer. Olhou para o telefone perto do sofá e quando fez mensão de pega-lo, congelou ao ouvir a voz dele, vindo de sua sala de estar. "Eu não faria isso se fosse você." disse David parado, de pé, encostado no vão do corredor que vinha do quarto dela, de braços cruzados.
     Victoria virou-se lentamente para ele e pôs o copo na mesa onde ficava o telefone. "O que você quer? Tenho dinheiro, pode levar..." tentou argumentar com ele, David abriu um sorriso de desdém para a proposta oferecida. Ele era rico, controlava uma impresa imobiliária na cidade, teria quanto quisesse, se precisasse de dinheiro. Então, ele andou até ela, cruzando a sala de estar. Victoria não entendia o porque ele fazia aquilo, estupro seria a próxima opção a ser deduzida. Ela sentiu medo, muto medo. Medo de ser violentada, medo de não poder se defender, medo de sofrer nas mãos de um pervertido bastardo que só pensava em saciar a própria luxúria.
     David avançava para ela, lentamente, enquanto Victoria recuava. Novamente ela se viu imprensada contra a parece pelo corpo dele. Ela tremia e algumas lágrimas já ensaiavam rolar quando ele acariciou a face dela com uma das mãos. "Calma... não lhe farei mal." disse ele com um ar sedutor. Nada que ele dissesse poderia acalma-la. Ela pensava estar prestes a ser estuprada e as ações dele não diziam o contrário.
     "Bela..." disse David sussurrando para si mesmo, como uma observação. "Não... por favor... não.." suplicava ela em voz baixa. David aproximou seus lábios dos dela e a beijou. Victoria tentou evitar o ato, mas não foi capaz com a mão dele segurando a face dela. Beijando-a, ele cortou a parte inferior dos lábios dela e deixou o sangue sair, bebendo-o. Uma onda de prazer intenso invadiu o corpo de Victoria enquanto a língua quente do estranho percorria sua boca à procura da língua dela. Saboreando cada segundo do beijo e cada gota de sangue obtida, David alimentava-se dela.
     No final, ele fechou a ferida lambendo-a e se afastou. Ela estava confusa, o medo ainda estava com ela, mas também o prazer pelo beijo ainda inundava seu corpo. Victoria olhou para ele transmitindo sua confusão de sentimentos em seu olhar.
     David deu um leve tapa na face dela e se afastou. Abriu a porta e parou enquanto acendia um cigarro. "Nos vemos por aí." disse ele, saindo do apartamento e fechando a porta, satisfeito pela alimentação.

sábado, 13 de novembro de 2010

Início da Diversão

     Era uma noite monótona e David Winters estava entediado, sem saco para as conversas fiadas de seus irmãos do Sabá e sem paciência para lidar com o rebanho. Precisava se alimentar. A Besta dentro dele logo seria exaltada se ele não a sobrepujasse com o doce líquido carmesin. 
     Ele aperta o volante de couro se seu Mustang e o guiava à esmo, dobrando em ruas aleatórias, seguindo passos inconsciêntes, deixando a noite leva-lo à sua refeição. Um shopping, pensou ele quando avistou o o prédio comercial onde vários mortais passeavam durante a noite. A chuva começava a cair, fina e leve enquanto o Mustang preto adentrava o estacionamento, abrigando-se da chuva e indo de encontro com sua presa ainda desconhecida. Seu coração já batia um pouco mais forte ao pensar nas surpresas que o aguardavam esta noite. "Será que encontrarei algum marginal tentando roubar o shopping?", pensou ele. Criminosos eram seu prato favorito, ainda mais quando servidos com requintes de tortura como acompanhamento. A dor imposta como castigo, retribuição àos atos antagônicos, e já banais à sociedade, lhe garantiam uma grande satisfação, sendo geralmente sua sobremesa.
     Quanto mais a tempo demorava à alimentar-se, mais a Besta Interior gargalhava planejando as atrocidades justificadas pela Obssessiva consciência de David como atos justos, contrapesos à balança da justiça há muito já desequilibrada pela corrupção moderna. O estacionamento estava vazio. Um palco bem montado para sua atuação gastronômica e atrocidades afins. Ainda sentado dentro do carro, pensando e esperando, planejando o improviso, aguardando sua presa aparecer, o nervosismo estava começando a dar sinais. "E se não aparecer ninguém?" pensou. Ser tomado pelo frenesi dentro do estacionamento não seria uma boa idéia, mas mesmo assim, tinha decidido apostar em sua intuição, que aparecera repentinamente após seu abraço, meses atrás. 
     As sombras dançavam dentro do clássico carro de David, uma dança invisível à possíveis e eventuais observadores externos, pois os negros vidros do carro não permitiriam que nenhum mortal visse o que acontece ali. O poder sombrio começava a tomar forma, uma forma que ele não gostava, era ela, a vadia bastarda que lhe concedera o abraço. Ele tentava à custos conter as sombras de tomarem a forma de sua senhora. A força mental para conter seu inconsciente de agredi-lo moralmente mostrando a face de sua odiada progenitora profana manifestada nas massas oriundas do abismo lhe fazia esgotar ainda mais o autocontrole que lhe restava.
     A porta que dava passagem para o estacionamento foi aberta. Algo dentro de David pareceu contorcer-se com a expectativa quando uma família, pai, mãe e duas meninas gêmeas de não mais que sete anos sairam pela porta, todos felizes e sorrindo, satisfeitos com as compras. "Droga!" não podia ataca-los. Não desgraçaria uma família harmoniosa apenas por estar no topo da cadeia alimentar. Os resquícios de humanidade eram as únicas coisas nele que ainda o faziam se orgulhar por diferencia-lo da piranha imunda que o amaldiçoou com a própria vitae. A raiva que tinha por ela se misturava com gratidão por ter aberto os olhos dele para a imortalidade e lhe dado meios de potencializar suas capacidades, amaldiçoando-o. Porém, ele já era um desgraçado quando ela o encontrou. Ele não poderia desgraçar uma família, por mais tentador que pudesse parecer neste momento. A família logo entrou em seu carro e saiu, enquanto David esperava impacientemente pela próxima pessoa que atravessasse àquela porta.
     Mais uma vez a porta se abriu e seu coração novamente deu um salto ao olhar para a porta. Uma jovem mulher de não mais de vinte e poucos anos adentrava o estacionamento com seus cabelos castanhos e bem cuidados, ela andava passo-a-passo, sozinha em direção a um new betle vermelho estacionado não muito longe do negro Mustang. À primeira vista, uma charmosa burguesinha de vida fácil, consumista, hedonista, esbanjando fragilidade. Não necessáriamente o tipo predileto de David, mas serviria para alimenta-lo por hora. "Não vou mata-la..." pensou.
     Era hora de controlar-se, não podia fazer besteira. De impulso, ele abriu a porta do carro e saiu. Imediatamente as sombras voltaram a seus devidos lugares, estáticas. Seu subconsciente parecia ter entendido a necessidade de controle. Ele se sentou no capô do Mustand, tirando um cigarro da carteira e acendendo-o. Era proibído fumar no estacionamento do shopping e ele sabia disso, porém, quem seria o segurança com colhão suficiente para impedi-lo de fumar alí?
     Ela parecia ter percebido a presença sinistra do homem de coturno e calças de couro, parecendo que saiu de um dos filmes do Corvo. Victoria não gostou nada quando o "punk" acendeu um cigarro e com os cabelos negros sobre a face ficou encarando-a enquanto fumava. Com o controle preciso sobre as sombras e um pouco de concentração, David as fez se massificarem e prenderem a trava da porta do carro vermelho. Impedindo-a de entrar. 
     Victoria não gostou nada quando, apressada, forçou a maçaneta de seu carro para abrir e a viu imperrada. "droga!" exclamou ela baixinho.
     Com um sorriso entre os finos lábios e o cigarro entre os dedos, ele disse a si mesmo "É hora de diversão".

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Epílogo.

     Os passos secos e firmes da bota ecoam levemente pelo beco escuro e deserto. De dentro do casaco de couro sai um isqueiro. A mão pálida o leva à frente e a chama irrompe dele, acendendo o cigarro nos lábios finos e pálidos da figura sinistra que anda pelo beco.
     Os cabelos negros, secos e mal cuidados caem à face pálida homem de feições leves, bela e letal. O cigarro em seus lábios vai queimando lentamente a cada trago. O esforço para fumar compensa o sabor forte da nicotina. Os pulmões, à muito mortos, fingem funcionar debilitadamente à vontade do homem.
     Um grito é ouvido de trás de um container de lixo, enferrujado. Uma mulher se debate, caída, dois homens a atacam. Um deles, rasga à força o vestido da mulher, com a lâmina pequena de um canivete, que por acidente, acaba cortando levemente o seio dela. Um filete de sangue escorre pelo seio nú enquanto o outro estuprador abre o ziper das calças, ponto seu membro excitado para fora. Enquanto um homem sufoca a mulher, o outro abre as pernas dela.
     Excitados pelo perigo, empolgados pela aventura, rígidos pela violência e concentrados no estupro, ambos não ouvem os passos das botas negras se aproximarem. Ambos não percebem quando as sombras rastejam e se aproximam por trás dos dois. Ambos não percebem a maça volumosa de sombra envolver a única lâmpada que ilumina o beco. Ambos não percebem o cheiro do tacabo e da nicotina. Ambos não percebem a presença do homem, atrás deles. Eles não percebem também as sombras se enrolando lenta e furtivamente em seus pés e mãos.
     Mas ambos percebem quando são arrastados por volumes de sombras densas e presos na parede do beco, com pés e mãos atados pelas maças da mortalha sombria.
     Os olhos negros, frios e sem brilho do homem fitam os dois. Sombras, ao comando do homem, cobrem a boca de ambos os estupradores. A mão do homem tira de dentro do casaco uma faca afiada. A lâmina desliza pelo rosto dos estupradores enquanto o homem pensa qual dois dois vai ser o primeiro a perder uma parte de seu rosto.
     O último trago do cigarro. Uma orelha a menos. Um grito sufocado, olhos arregalados. Um sorriso nos lábios finos e pálidos.
     A binga cai no chão. Um olho a menos. Sangue jorrando no rosto sombrio do homem. Mais um sorriso nos lágios.
     A mulher sai correndo, desesperada para sair do beco. Um pênis a menos no mundo. Um membro flácido no chão. Sangue jorrando na calça de couro do homem. Uma gargalhada em tom baixo, contida.
     Dois corpos depenados, jogados no chão. Membros espalhados, visceras arrancadas. Estupradores ainda agonizando, dando seus últimos suspiros antes de finalmente morrerem. Agonia, dor, medo. Ferramentas úteis para a punição.
     Um homem saindo do beco, as sombras voltando aos seus devidos lugares.


- Faço que que tenho que fazer. Quem mais faria?