quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Perigosa Diversão

     Com um ar presunçoso, de domínio sobre a situação, David levantou-se do capô do carro e pôs-se a andar passo-a-passo em direção à sua presa. Victoria começava a ficar mais apreensiva.Um estranho daqueles se aproximando, o estacionamento vazio, sua porta travada, quanto azar!
     Dando um trago no cigarro e fitanto sua presa, David se aproximou de Victoria, parando à poucos passos dela. Olhando-a de cima a baixo, com seus olhos negros e frios. "Dia ruim não...?" Disse David em tom suspeito. Victoria tentou fugir do olhar, mas acabou por encara-lo, sem dizer nada, sem saber o que dizer.
     "Talvez eu possa lhe ajudar..." disse David levando a mão à massaneta do carro, encostando na mão dela. Victoria tirou a mão rapidamente, assustada com a aproximação repentina e suspeita dele. Ele se posicionou de tal forma que emprensou ela levemente,com seu corpo, contra o carro, de frente para ele. David forçou a maçaneta enquanto liberava as sombras que prendiam a tranca, abrindo a porta com facilidade. "Prontinho..." disse ele com sua voz estranhamente carismática, com um tom de ameaça e sedução.
     Após abrir a porta, permaneceu alguns segundos ainda prendendo Victoria, com a proximidade das duas faces, ele a analisava, a cheirava como um predador farejando sua presa. E então, ele se afastou. A respiração dela estava forte, o medo era nítido nela. Victoria rapidamente entrou no carro, porém, quando foi fechar a porta, a mão de David a impediu. "Algo mais?" disse David com um ar convidativo, como se a chamasse para a escuridão, para o deleite. "Não, obrigada." disse Victoria tentando manter-se calma enquanto puxada a porta para fechada. Finalmente, David decidiu deixa-la ir, soltando a porta e se afastando do carro.

      Victoria estava dirigindo, nervosa pelo encontro com o estranho. O carro andava à alta velocidade nas ruas de Los Angeles, como se fugisse de um perseguidor, no entanto, não havia carro algum seguindo Victoria. Foi então que de uma rua próxima o Ford Mustang negro como a noite apareceu, dobrando na rua principal e emparelhando com o carro de Victoria, quando o sinal fechou. Victoria rapidamente levantou o vidro do carro, fechando-se para qualquer aproximação do estranho. David a olhou pela janela, com o vidro abaixado, estudando sua presa, seu alvo. O sinal abriu e Victoria arrancou com o carro. David acelerou também, andando lado-a-lado com ela, como em um racha no qual ele permitia-se controlar o carro para não ultrapassar sua presa. O medo dela o estimulava e o fazia desejar ainda mais beber daquele sangue, cravar as presas naquela mulher bela e cheirosa.
     David dobrou em uma rua secundária, deixando-a avançar pela rua principal, dando a ela a impressão que se livrara dele.

     Victoria já tinha chegado em casa fazia meia hora. Ainda muito assustada pelos acontecimentos da noite, ela tinha ido tomar um banho. Lá fora, o Ford Mustang era estacionado na calçada em frente ao apartamento de Victoria. David olhava para as luzes acesas do apartamento dela, pensando em como faria.
     Ao sair do banho e vestir-se já para tentar dormir, o sentimento de insegurança ainda permanecia em Victoria. Ela voltada da cozinha com um copo d'água na mão quando olhou pela janela da sala e viu o carro negro estacionado em frente ao seu apartamento. O copo quase caiu de sua mão quando ela ouviu a campainha tocar. Victoria estava assustada, não sabia o que mais poderia fazer. Olhou para o telefone perto do sofá e quando fez mensão de pega-lo, congelou ao ouvir a voz dele, vindo de sua sala de estar. "Eu não faria isso se fosse você." disse David parado, de pé, encostado no vão do corredor que vinha do quarto dela, de braços cruzados.
     Victoria virou-se lentamente para ele e pôs o copo na mesa onde ficava o telefone. "O que você quer? Tenho dinheiro, pode levar..." tentou argumentar com ele, David abriu um sorriso de desdém para a proposta oferecida. Ele era rico, controlava uma impresa imobiliária na cidade, teria quanto quisesse, se precisasse de dinheiro. Então, ele andou até ela, cruzando a sala de estar. Victoria não entendia o porque ele fazia aquilo, estupro seria a próxima opção a ser deduzida. Ela sentiu medo, muto medo. Medo de ser violentada, medo de não poder se defender, medo de sofrer nas mãos de um pervertido bastardo que só pensava em saciar a própria luxúria.
     David avançava para ela, lentamente, enquanto Victoria recuava. Novamente ela se viu imprensada contra a parece pelo corpo dele. Ela tremia e algumas lágrimas já ensaiavam rolar quando ele acariciou a face dela com uma das mãos. "Calma... não lhe farei mal." disse ele com um ar sedutor. Nada que ele dissesse poderia acalma-la. Ela pensava estar prestes a ser estuprada e as ações dele não diziam o contrário.
     "Bela..." disse David sussurrando para si mesmo, como uma observação. "Não... por favor... não.." suplicava ela em voz baixa. David aproximou seus lábios dos dela e a beijou. Victoria tentou evitar o ato, mas não foi capaz com a mão dele segurando a face dela. Beijando-a, ele cortou a parte inferior dos lábios dela e deixou o sangue sair, bebendo-o. Uma onda de prazer intenso invadiu o corpo de Victoria enquanto a língua quente do estranho percorria sua boca à procura da língua dela. Saboreando cada segundo do beijo e cada gota de sangue obtida, David alimentava-se dela.
     No final, ele fechou a ferida lambendo-a e se afastou. Ela estava confusa, o medo ainda estava com ela, mas também o prazer pelo beijo ainda inundava seu corpo. Victoria olhou para ele transmitindo sua confusão de sentimentos em seu olhar.
     David deu um leve tapa na face dela e se afastou. Abriu a porta e parou enquanto acendia um cigarro. "Nos vemos por aí." disse ele, saindo do apartamento e fechando a porta, satisfeito pela alimentação.

sábado, 13 de novembro de 2010

Início da Diversão

     Era uma noite monótona e David Winters estava entediado, sem saco para as conversas fiadas de seus irmãos do Sabá e sem paciência para lidar com o rebanho. Precisava se alimentar. A Besta dentro dele logo seria exaltada se ele não a sobrepujasse com o doce líquido carmesin. 
     Ele aperta o volante de couro se seu Mustang e o guiava à esmo, dobrando em ruas aleatórias, seguindo passos inconsciêntes, deixando a noite leva-lo à sua refeição. Um shopping, pensou ele quando avistou o o prédio comercial onde vários mortais passeavam durante a noite. A chuva começava a cair, fina e leve enquanto o Mustang preto adentrava o estacionamento, abrigando-se da chuva e indo de encontro com sua presa ainda desconhecida. Seu coração já batia um pouco mais forte ao pensar nas surpresas que o aguardavam esta noite. "Será que encontrarei algum marginal tentando roubar o shopping?", pensou ele. Criminosos eram seu prato favorito, ainda mais quando servidos com requintes de tortura como acompanhamento. A dor imposta como castigo, retribuição àos atos antagônicos, e já banais à sociedade, lhe garantiam uma grande satisfação, sendo geralmente sua sobremesa.
     Quanto mais a tempo demorava à alimentar-se, mais a Besta Interior gargalhava planejando as atrocidades justificadas pela Obssessiva consciência de David como atos justos, contrapesos à balança da justiça há muito já desequilibrada pela corrupção moderna. O estacionamento estava vazio. Um palco bem montado para sua atuação gastronômica e atrocidades afins. Ainda sentado dentro do carro, pensando e esperando, planejando o improviso, aguardando sua presa aparecer, o nervosismo estava começando a dar sinais. "E se não aparecer ninguém?" pensou. Ser tomado pelo frenesi dentro do estacionamento não seria uma boa idéia, mas mesmo assim, tinha decidido apostar em sua intuição, que aparecera repentinamente após seu abraço, meses atrás. 
     As sombras dançavam dentro do clássico carro de David, uma dança invisível à possíveis e eventuais observadores externos, pois os negros vidros do carro não permitiriam que nenhum mortal visse o que acontece ali. O poder sombrio começava a tomar forma, uma forma que ele não gostava, era ela, a vadia bastarda que lhe concedera o abraço. Ele tentava à custos conter as sombras de tomarem a forma de sua senhora. A força mental para conter seu inconsciente de agredi-lo moralmente mostrando a face de sua odiada progenitora profana manifestada nas massas oriundas do abismo lhe fazia esgotar ainda mais o autocontrole que lhe restava.
     A porta que dava passagem para o estacionamento foi aberta. Algo dentro de David pareceu contorcer-se com a expectativa quando uma família, pai, mãe e duas meninas gêmeas de não mais que sete anos sairam pela porta, todos felizes e sorrindo, satisfeitos com as compras. "Droga!" não podia ataca-los. Não desgraçaria uma família harmoniosa apenas por estar no topo da cadeia alimentar. Os resquícios de humanidade eram as únicas coisas nele que ainda o faziam se orgulhar por diferencia-lo da piranha imunda que o amaldiçoou com a própria vitae. A raiva que tinha por ela se misturava com gratidão por ter aberto os olhos dele para a imortalidade e lhe dado meios de potencializar suas capacidades, amaldiçoando-o. Porém, ele já era um desgraçado quando ela o encontrou. Ele não poderia desgraçar uma família, por mais tentador que pudesse parecer neste momento. A família logo entrou em seu carro e saiu, enquanto David esperava impacientemente pela próxima pessoa que atravessasse àquela porta.
     Mais uma vez a porta se abriu e seu coração novamente deu um salto ao olhar para a porta. Uma jovem mulher de não mais de vinte e poucos anos adentrava o estacionamento com seus cabelos castanhos e bem cuidados, ela andava passo-a-passo, sozinha em direção a um new betle vermelho estacionado não muito longe do negro Mustang. À primeira vista, uma charmosa burguesinha de vida fácil, consumista, hedonista, esbanjando fragilidade. Não necessáriamente o tipo predileto de David, mas serviria para alimenta-lo por hora. "Não vou mata-la..." pensou.
     Era hora de controlar-se, não podia fazer besteira. De impulso, ele abriu a porta do carro e saiu. Imediatamente as sombras voltaram a seus devidos lugares, estáticas. Seu subconsciente parecia ter entendido a necessidade de controle. Ele se sentou no capô do Mustand, tirando um cigarro da carteira e acendendo-o. Era proibído fumar no estacionamento do shopping e ele sabia disso, porém, quem seria o segurança com colhão suficiente para impedi-lo de fumar alí?
     Ela parecia ter percebido a presença sinistra do homem de coturno e calças de couro, parecendo que saiu de um dos filmes do Corvo. Victoria não gostou nada quando o "punk" acendeu um cigarro e com os cabelos negros sobre a face ficou encarando-a enquanto fumava. Com o controle preciso sobre as sombras e um pouco de concentração, David as fez se massificarem e prenderem a trava da porta do carro vermelho. Impedindo-a de entrar. 
     Victoria não gostou nada quando, apressada, forçou a maçaneta de seu carro para abrir e a viu imperrada. "droga!" exclamou ela baixinho.
     Com um sorriso entre os finos lábios e o cigarro entre os dedos, ele disse a si mesmo "É hora de diversão".

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Epílogo.

     Os passos secos e firmes da bota ecoam levemente pelo beco escuro e deserto. De dentro do casaco de couro sai um isqueiro. A mão pálida o leva à frente e a chama irrompe dele, acendendo o cigarro nos lábios finos e pálidos da figura sinistra que anda pelo beco.
     Os cabelos negros, secos e mal cuidados caem à face pálida homem de feições leves, bela e letal. O cigarro em seus lábios vai queimando lentamente a cada trago. O esforço para fumar compensa o sabor forte da nicotina. Os pulmões, à muito mortos, fingem funcionar debilitadamente à vontade do homem.
     Um grito é ouvido de trás de um container de lixo, enferrujado. Uma mulher se debate, caída, dois homens a atacam. Um deles, rasga à força o vestido da mulher, com a lâmina pequena de um canivete, que por acidente, acaba cortando levemente o seio dela. Um filete de sangue escorre pelo seio nú enquanto o outro estuprador abre o ziper das calças, ponto seu membro excitado para fora. Enquanto um homem sufoca a mulher, o outro abre as pernas dela.
     Excitados pelo perigo, empolgados pela aventura, rígidos pela violência e concentrados no estupro, ambos não ouvem os passos das botas negras se aproximarem. Ambos não percebem quando as sombras rastejam e se aproximam por trás dos dois. Ambos não percebem a maça volumosa de sombra envolver a única lâmpada que ilumina o beco. Ambos não percebem o cheiro do tacabo e da nicotina. Ambos não percebem a presença do homem, atrás deles. Eles não percebem também as sombras se enrolando lenta e furtivamente em seus pés e mãos.
     Mas ambos percebem quando são arrastados por volumes de sombras densas e presos na parede do beco, com pés e mãos atados pelas maças da mortalha sombria.
     Os olhos negros, frios e sem brilho do homem fitam os dois. Sombras, ao comando do homem, cobrem a boca de ambos os estupradores. A mão do homem tira de dentro do casaco uma faca afiada. A lâmina desliza pelo rosto dos estupradores enquanto o homem pensa qual dois dois vai ser o primeiro a perder uma parte de seu rosto.
     O último trago do cigarro. Uma orelha a menos. Um grito sufocado, olhos arregalados. Um sorriso nos lábios finos e pálidos.
     A binga cai no chão. Um olho a menos. Sangue jorrando no rosto sombrio do homem. Mais um sorriso nos lágios.
     A mulher sai correndo, desesperada para sair do beco. Um pênis a menos no mundo. Um membro flácido no chão. Sangue jorrando na calça de couro do homem. Uma gargalhada em tom baixo, contida.
     Dois corpos depenados, jogados no chão. Membros espalhados, visceras arrancadas. Estupradores ainda agonizando, dando seus últimos suspiros antes de finalmente morrerem. Agonia, dor, medo. Ferramentas úteis para a punição.
     Um homem saindo do beco, as sombras voltando aos seus devidos lugares.


- Faço que que tenho que fazer. Quem mais faria?